• gilberto soares

A marca da cruz


"...com a inscrição 'Jesus Cristo, Rei dos Judeus'. A religião que unira Roma ganhara a marca definitiva."




O homem cria símbolos fundamentais à sua própria evolução. A escrita silábica desenvolvida por sumérios e acádios 3.000 anos atrás é um salto se comparada ao “pequeno passo” admitidos por Neil Armstrong na breve caminhada lunar. Mas, apesar das palavras poderem representar a totalidade do que se quer expressar, a comunicação necessita de complementos aos vocábulos para ser linguagem. Precisa de outros signos sintéticos e expressivos – logotipo, marca – assimiláveis até por quem não saiba ler. Construir tais elementos é o sonho dos “criativos” de hoje e sempre.


MARCA. O cristianismo é o empreendimento formidável de uma história mantida viva por cerca de 2,3 bilhões de adeptos e sobrevivente a visões antagônicas – de apóstolos a apóstatas. Seu Deus único começou a reinar em um tempo abundante em deidades. Estimulava o amor e exclusividade, devoção e obediência. Vingou pelas diferenças.

O ano de 303 guardava uma mudança crucial para o mundo. Na Ponte de Mílvio, junto aos muros de Roma, Constantino lutaria com o rival Mexêncio pela supremacia do império. Até ali, creditara suas vitórias ao Deus dos cristãos, mas tinha dúvidas sobre aquela batalha. Então, recebeu esta epifania (sonhou?): venceria se pintasse o monograma “In hoc signes vinces” (“Com este sinal vencerás”) nos escudos do exército. Pintou e venceu. Em 313, de acordo com o Edito de Milão, todos os decretos penais contra cristão foram revogados, os prisioneiros libertados e suas propriedades restauradas. É desse período o mais significativo dos achados, segundo o livro Os Templários – A história dramática dos Cavaleiros Templários, a mais poderosa ordem militar dos Cruzados –, escrito por Piers Paul Read. Segundo a obra, Constantino ordenara a demolição de templos na Palestina para a construção de igrejas. Durante as escavações, descobriu-se o madeiro de uma cruz com a inscrição “Jesus Cristo, Rei dos Judeus”. A religião que unira Roma ganhara a marca definitiva.


MULTINACIONAL. A cruz passou a identificar empreendimentos do cristianismo a partir de 1096, quando emblemou vestes e escudos dos Cavaleiros Templários. Quatro séculos depois, as caravelas portuguesas conquistavam lugares nunca dantes navegados sob a cruz da Ordem de Cristo. A política exploratória, comercial e evangelizadora implementada pelo Infante Dom Henrique de Avis impunha ao mundo a identidade visual de uma organização multinacional.

No século XX, a máquina de propaganda de Joseph Goebbels adotou a cruz suástica como logotipo nacional-socialista. Com a vitória política de Hitler, a suástica passou a representar o “establishment” do Reich. Virou assinatura de um país recuperado da I Guerra Mundial e apto à revanche, que se iniciou como “blitzkrieg” e terminou com a Alemanha destruída. Propaganda, eis uma verdade histórica, não salva produto ruim.


DESENHO. A lua crescente ao lado de uma estrela simboliza o islamismo; a Estrela de Davi, é o símbolo do judaísmo. São concepções complexas comparadas ao desenho da cruz, que expressa simplicidade e incorpora incontáveis significados. Foi, por exemplo, instrumento de tortura e morte; hoje quer dizer piedade e concórdia. Pode ser um abraço a unir divisões Oriente e Ocidente, Norte e o Sul; também é a falta de explicação oculta por dogmas. É óbvia para quem vê e para o cego. E o mais surpreendente: como marca indelével, tornou-se superior à doutrina religiosa, que muda de tempos em tempos para se manter coerente com a evolução.

Por fim, corro o risco da blasfêmia ao defini-la como uma lição divina de marketing.

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