• gilberto soares

Anões sobre ombros de gigantes


"Felizmente, os benditos doidos de atar têm a petulância de contradizer até erros divinos."


O mundo renega sonhadores, Eu os admiro. Respeito os loucos que se desprendem da realidade para formular conceitos novos, idílicos, quiçá aplicáveis ao futuro. Singulares e diversos na metodologia. Uns têm a capacidade de fazer do improvável uma realidade, e dentro de sua geração. Outros vão mais longe e renunciam o dia a dia dos mortais e mergulham em convicções de titãs. Desafiam regras erigidas pelo conhecimento acumulado e buscam o impensável. Mesmo com o risco da descoberta não passar da teoria ou, pior, ser considerada reles delírio. Felizmente, os benditos doidos de atar têm a petulância de contradizer até erros divinos. Giordano Bruno, um exemplo radical, pensou em estrelas cercadas pelos próprios planetas. “Viu” um universo infinito e morreu em defesa da cosmologia. E fez isso no ano de 1.600, desafiando uma igreja soberana e dogmática. Sacrificou-se (foi queimado por heresia) por uma constatação quase banal hoje, embora os terraplanistas possam rever essa teoria esquisita.


CADERNOS. No livro Uma breve história da humanidade, o historiador israelense Yuval Noah Harari destaca a “capacidade de falar sobre ficção” como a mais singular das características do ser humano. Para ele, a imaginação alçou o sapiens ao topo da pirâmide, enquanto a falta dessa levou os demais “homo” à extinção. Uma obra mais recente também se atém ao poder criador do homem. Leonardo da Vince, biografia escrita pelo jornalista e escritor Walter Isaacson. O autor, que havia surpreendido com a biografia de Steve Jobs, agora revela detalhes da rotina desse gigante da Renascença. Isaacson evitou o caminho fácil da trilha das obras conhecidas e fundamentou o livro nas observações cotidianas do gênio. Um mergulho profundo nos relatos escritos em cadernos que Leonardo – é o nome; da Vince o local de origem – deixou repletos de ilustrações. Anotações de projetos e estudos que se transformam em roteiros de dias excepcionais. Imprevisíveis a ponto de reunirem atores de variadas estirpes – criados, parentes, artistas, Maquiavel, os Sforza, os Médici, reis, papas e nobreza francesa – em um ato.


ILEGÍTIMO. Genial, cordial, mas leniente no cumprimento dos contratos. Eis um resumo precipitado do comportamento de um dos maiores criativos da humanidade. Suas obras levaram a pintura a um estágio divino, calcado nos estudos obsessivos de ótica e geometria, que redefiniram a perspectiva ao que sabemos. Introduziu a técnica dos contornos atenuados pelo “sfumato” após observar que o olho humano não poder defini-los em linhas. Como era um polímata, produziu espetáculo, desenhou armas e equipamentos, projetou cidades e levou os estudos de anatomia à maestria. Pulava de uma atividade para outra, como se lhe faltasse foco. Na verdade, a combinação de desafios a que se submetia aumentava-lhe o conhecimento e formava sua capacidade teórica. Era filho ilegítimo, sem direito à educação formal e ao aprendizado de latim – a língua do conhecimento. Portanto, fez da observação acurada o método de aprendizado. Experimentar, cotejar, deduzir e imaginar fizeram dele um polímato.



ANÕES. Todos os homem precisam de sonhos; os “criativos” – publicitários, escritores, pensadores, entre outros, necessitam de ideias. Alguns as têm e as concebem como se dormissem. A quase totalidade dos “criativos” repete exercícios antigos, apesar da matéria-prima ser a imaginação. Reciclam o velho na luta pelo novo e sofrem para remunerar seus intangíveis. Na maioria das vezes, recebem pouco pela ignorância de uma mundo pouco afeito às mudanças bruscas e radicais. Por ser assim, deteriora-se o pensamento disruptivo, conceito da hora cada vez mais distante do sentido original. Com exceção das tecnologias digitais, os espaços para titãs capazes de transformar o futuro convencionado em ideias originais permanecerão tão rarefeitos quanto na Idade Média.

Pois assim caminha a humanidade. Racional para calcular o passo à frente e com ousadia mínima de sonhar outro futuro que não seja previsível. E com esta realidade no século XXI, continuamos a ser “anões sobre ombro de gigantes”, conforme observou Bernardo de Chartres... no século XII.

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