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  • gilberto soares

O guardião e o resumo da história

Atualizado: Mar 9



"Então, abatido com tanta indigência intelectual, resumiu a história assim..."

Era um caçador de palavras deturpadas, impróprias ou fora de lugar. Revisor das antigas, mantinha-se alerta para sair íntegro da odisseia diária no pequeno jornal.

Combinava bom humor com irritações divertidas. Certa vez, desferiu um sonoro “mentecapto” para um "motoboy", que lhe empurrara uma encomenda de qualquer jeito. Interpretaram a expressão irritadiça como um dito engraçado e a vida seguiu livre, leve, solta.

Metódico, chegava no meio da tarde e iluminava a redação com a mesma pérola na ponta da língua: “Tardes, moçoilas e mancebos!” Após a gargalhada prazerosa de todos, iniciava a caça tenaz ao erros incabíveis – até para aquele pasquim de textos rasos.


VÍTIMA. Perdia o humor diante da primeira “vítima fatal” insepulta em alguma reportagem policial. Resmungava: “Não basta a pessoa ter morrido e ainda lhe grudam um adjetivo mal dito. “Fatal pode ser a bala que atinge alguém!”, grunhia. Inquietava-se com neologismos e deturpações semânticas – “revitalizar” em vez de “vitalizar”; “executar” – prerrogativa do Estado – para crimes cometidos por facções. Mostrava os exatos “recuperar” e “assassinar”, rasurava as folhas e acrescentava um conselho inflexível: “Leia!”


INDIGÊNCIA. Sem entender a lógica da linguagem virtual, encarou o império da tolice reforçado pelo minimalismo raso das redes sociais. Sofria por “baixar” ter virado “download” e “eliminar” ser preterida por “deletar” – “destruir” em latim, por ironia. E encarou os virais “vcs”; “rs, rs, rs”; e “k, k, k”, enquanto “sales”, “offs” e “outlets” invadiam o campo de textos publicitários outrora criativos. Contágio brabo.

Guardião voluntário da última flor do Lácio, prometeu pagar um jantar após cada mês livre de jargões e anglicismos. Imaginou textos escorreitos e festa no restaurante, mas passou o ano sem botar um centavo da parca aposentadoria na dívida sonhada. Tal economia não lhe deixou mais feliz. Então, abatido com tanta indigência intelectual, resumiu a história assim: “Não existe outro sabor melhor, mais fino e prazeroso para quem viciou-se em “fast food”.

E ponto final.