• gilberto soares

Ponha um tigre em seu carro


"Não bastava andar rápido. Ultrapassar os outros era o limite (ou a falta de)."



Criei, certa vez, uma campanha publicitária para salvar o motorista de si mesmo." Quero paz no trânsito" foi o “leitmotiv” que emulou o trabalho para a Distribuidora Charrua na oportunidade. Havia uma singularidade no projeto. Nenhuma peça salientava produtos – gasolina, álcool, óleo – ou serviços – atendimento, conveniência, lavagem. O discurso evitava a valorização dos veículos automotores. O alvo era a pessoa e a informação continuada era instrumento para provocar a reflexão. DECODIFICAÇÃO. Inspirei-me no” slogan” famoso utilizado pela Esso a partir de 1959: "Ponha um tigre no seu carro". Aprendi o sentido exato dessa quase palavra de ordem ao ler O slogan, livro do filósofo francês Olivier Reboul. Na obra, o escritor ressalta três decodificações interligadas na mensagem aparentemente inocente. A consciente: “Este carburante (combustível) é eficiente”; a subconsciente: “Com ele, eu ultrapasso todo mundo”; e a inconsciente, mas determinante: “Eu sou o tigre”. Uma lição para quem imagina a comunicação como uma simples troca de recados. Interessante reler o texto de um anúncio publicado na revista Veja, dez anos depois, explicitando a intenção original da Esso (mantive a grafia da época): “Os primeiros automobilistas que usaram o nôvo aditivo da gasolina da Esso levaram um susto danado. Eles sabiam que aquêle era o mais poderoso aditivo. Mas não podiam supor que GRRRR... seu carro ia ganhar a potência de um Tigre!” Incrível aqueles tempos nos quais era importante estimular experiências calcadas na emoção inconsequente da velocidade. Não bastava andar rápido. Ultrapassar os outros era o limite (ou a falta de). A rebeldia de James Dean de curta e marcante trajetória, ainda seduzia. Quem sabe pelo trágico e cinematográfico fim a bordo de um Porsche 550 Spyder “Little Bastard”. MENSAGEM. Ao ler Reboul, compreendi aquele momento da Esso e fiz o inverso. Evitei o estereótipo do veículo como ferramenta agressiva. Motorista em vez de piloto. As peças publicitárias – anúncios, “flyers” etc. – estimulavam a adoção da “direção defensiva” e o cuidado com o outro. Por meio da informação sistemática, a empresa incutia a ideia da vida como prioridade. Acima de tudo, "Quero paz no trânsito" continha a mensagem de contrariedade a uma guerra não assumida. Conflito expresso na desgraçada contagem diária de feridos e mortos em nossas ruas, avenidas e estradas. Em vez de um tigre, a Charrua convidava o cidadão a pôr a vida em “seu carro”.

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